16 de julho de 2012

para (muito) além do desenvolvimentismo e da catástrofe. por hugo albuquerque.

DOMINGO, 15 DE JULHO DE 2012

Para (Muito) Além do Desenvolvimentismo e da Catástrofe

do blog O Descurvo - Por  Hugo Albuquerque
A notícia de uma catástrofe

Não resta dúvida que estamos diante de uma crise ambiental. 
Nem que, antes disso, uma crise aguda na coexistência humana 
foi instalada pela instalação do capitalismo. A questão não é 
que há uma crise ambiental e social, mas há uma grande e 
permanente doença instalada que se manifesta de variadas formas, 
estourando na forma de crises. A aparente incomunicabilidade 
entre um ecologismo radical e um socialismo ortodoxo, 
no entanto, sempre escondeu a visão reduzida de ambos 
frente a esse estado de coisas.  

É essa polêmica que o sempre atento João Telésforo
no belíssimo post Do ambientalismo catastrofista 
a ecologia dos desejos,  acendeu. Basicamente, 
João passa por questões caras e polêmicas que gravitam 
em torno da questão ambiental: crítica ao desenvolvimentismo 
e ao catastrofismo, emergência ambiental, relação com a 
questão social etc. E foi nessa direção queBruno Cava 
completou e avançou no incendiário É preciso consumir mais.

Pois bem, vamos começar do começo: ninguém 
tem dúvidas da gravíssima crise ambiental - muito menos o João, 
como ele expõe claramente -, mas eu arrisco em dizer que 
o posicionamento em relação ao paradigma da catástrofe - 
como prisma para a leitura dessa crise - consiste em 
uma divergência válida e importante. Porque isso embica 
nas propostas de alternativas para o modelo e qual 
a função do negativo nisso tudo. Por exemplo, políticas 
dedecrescimento são uma saída?

Cá, a exemplo do João, concordamos que uma 
saída que proponha algo como "desejem menos!
está fadada ao fracasso - e friso: um fracasso semelhante 
ao que experimentou a economia planificada, justamente 
por propor isso, concordando com Bruno.  
Eis aí a importância de uma ecologia dos desejos


Curiosamente ou não, ecologistas radicais e socialistas ortodoxos, 
apesar de divergirem entre si, se encontram precisamente aí, 
na pretensão idealista de busca a resolução pela resignação 
em nome de uma necessidade maior e transcendental, 
o que passa desde o "faça a sua parte!" 
(como o ingênuo fechar as torneiras enquanto se escova os dentes) 
até a adoção de políticas restritivas radicais, a partir 
das quais não se constrói uma alternativa 
nova de produção.

Uma dessas políticas restritivas é o descrescimentismo. 
Ela está inserida no mesmo binarismo que uma política 
crescimentista, mas apenas se reporta ao outro pólo de 
forma inversa. É continuar ratificar a mesma métrica 
e a mesma gramática do capital, de forma invertida, 
enquanto a linha de fuga para tanto está bem além 
de uma bifurcação expressa na forma 
crescimento-decrescimento, lucro-prejuízo 
ou proletarização-desemprego. 
Do mesmo modo que a experiência (neo)liberal 
dos últimos anos nos ensina que não há 
crescimento sem acentuação, de algum modo, 
da gestão estatal, também não há decrescimentismo 
fora da mesma lógica, só que ela precisaria organizar-se 
sintetizando tudo para produzir um desinvestimento 
massivo do desejo.

No que toca ao exemplo do proletarização-desemprego, 
é evidente que a conversão de variados setores da multidão
 - como índios, mendigos, quilombolas etc -  
em uma massa de trabalhadores empregados 
não é saída - ao contrário do pretende, por exemplo, 
o marxismo uspiano -, mas supor que uma condição 
de desemprego massificado não seja um problema 
é, certamente, ingênuo: nela, aquelas subjetividades 
todas, já convertidas em massa proletária, 
estão apenas descartados pelo sistema. 
Eles estão inutilizados dentro de um 
sistema utilitarista, não libertos dele. 


E ainda que o exemplo acima seja de como não se 
escapa de um binarismo recorrendo à inversão 
de seu pólo, é preciso anotar que decrescimentismo 
também não está desvinculado de produção 
de desemprego, nem que desemprego 
não seja um catástrofe - por vezes desejada 
por socialistas ortodoxos dentro do contexto 
da crise mundial para, daí, as massas se 
conscientizarem à força da necessidade da revolução. 
A catástrofe, o limite do mundo (ou do sistema econômico) 
aparece como forma de pensar a partir da impotência 
e não da potência infinita (portanto, de alternativas sem fim). 

Voltemos a crescimento-decrescimento. 
A produção está, em qualquer uma 
dessas hipóteses, traduzida em uma linguagem 
quantitavista. E qualquer uma delas, 
a produção precisa estar regulada por um 
esquema gestionário que obrigue produzir mais ou menos. 
O decrescimentismo, no entanto, é, reiteramos, 
uma inversão dentro da mesma racionalidade que 
é ratificada e sua aplicabilidade é ela mesma ilusória, 
servindo a outro fim na prática de sua aplicação - 
seja ele sua inaplicabilidade ou seu aparelhamento com outros fins.

Isso não quer dizer que não haja um problema 
de exaurimento dos recursos naturais, nem que 
estejamos consumindo demais, mas não é da
 resignação do consumo pessoal que iremos nos 
libertar do capital, inclusive porque, como 
lembram os mestres Deleuze e Guattari 
no próprio Anti-Édipo, que estejamos falando 
de grandezas  iguais quando tratamos de salários e lucros:


"Deveriam [os capitalistas e seus economistas] 
antes concluir que o teimam em esconder, 
a saber, que o dinheiro que entra no bolso assalariado 
não é o mesmo que se inscreve no balanço de uma empresa" (p. 271)

Quando se defende aumento de consumo, estamos 
falando de qual consumo e de como o exaurimento 
que isso produz no funcionamento do capitalismo 
abre enormes linhas de fugas. Por isso, por óbvio, 
o aumento do consumo por parte dos pobres 
no Brasil contemporâneo é positivo, uma vez que 
reorienta o próprio sentido da produção na direção 
das demandas sociais - que, naturalmente, 
está aberto a capturas, como qualquer forma de resistência.

O capitalista, no entanto, sempre está numa posição 
complexíssima: deseja os preços salariais menores 
possíveis (zero?) e, ao mesmo tempo, precisa de 
mercados consumidores (com qual riqueza social?). 
Isso explica desde os movimentos imperialistas - 
conquista de mercados consumidores - até as constantes 
crises no capital - a destruição dos próprios mercados 
consumidores para garantir a posse dos meios de produção 
ameaçada por trabalhadores financeiramente empoderados 
(e o surgimento de uma economia financeira, a nosso ver, 
tem mais a ver com a necessidade de acentuação 
de controle dos trabalhadores por meio da dívida 
que uma nova forma de ganhar dinheiro, 
embora também o seja).


Não é, por certo, o crescimento - ou se preferirem, 
o desenvolvimento - que alimenta a linha de fuga 
do empoderamento multitudinário, mas o 
empoderamento salarial dos trabalhadores e, 
inclusive, a remuneração não-laboral na forma 
de renda como no caso do bolsa família - 
seja lá a consequência que isso produza 
sobre o crescimento. O problema do desenvolvimentismo 
é justamente inverter essa direção, mesmo 
que seja para produzir vínculos e relações sociais e,  
também, por ignorar estrategicamente a posição 
absolutamente insana do capitalista - pretendendo "racionalizar" 
o capitalista, lhe ensinando o que é capitalismo, 
quando na verdade se expõe à sua sanha de vingança.


O ambientalismo radical ao dizer "consumam menos" 
ou "decresçamos" torna-se politicamente impotente, 
exceto na condição de discurso útil para ajudar
 a justificar políticas de austeridade mais sofisticadas, 
os reajustes que capitalistas bancam, de tempos 
em tempos, para garantir sua propriedade agora, 
quem sabe legitimados pela necessidade salvar a terra 
- não pela constituição de novos circuitos produtivos sustentáveis 
(portanto, anti-capitalistas), mas sim pela desprodução 
(o decrescimento) dentro do próprio âmbito capitalista. 
A saída para isso, exige pensar a produção para muito 
além da linguagem do capital e seus movimentos 
de avanço contínuo (ou recuos estratégicos).

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