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25 de março de 2011

SUPER DEBATE. A Hora do Planeta é um flashmob?

Flashmob é uma palavra inventada lá por 2003. Flashmob vem de flash mobilization ou mobilização rápida. É quando um monte de gente se reúne para chamar a atenção realizando um gesto em grupo, criativo, surpreendente que, por sua vez, chama a atenção para uma questão importante. E no minuto seguinte, zas, todo mundo some, já não tem mobilização nenhuma. Veja aqui um exemplo de flashmob
A Hora do Planeta existe desde 2007. A Hora do Planeta (Earth Hour) começou em Sydney, na Austrália, no mesmo ano em que o IPCC começou a aparecer mais na mídia por causa do debate em torno da mudança climática. De acordo com o Quarto Relatório periódico do IPCC, Intergovernmental Panel on Climate Change, gases de efeito estufa estão se acumulando na atmosfera, o planeta está ficando mais quente e isso se deve à ação humana e não a uma causa "natural" - uma idéia que ferve os ânimos dos céticos do clima.  Naquele ano, pouco mais 2 milhões de pessoas desligaram as luzes para chamar a atenção para a mudança climática. Desde então, mais e mais países participam dessa iniciativa da WWF, que lidera a ação - obviamente, o trabalho dessa conhecida ONG vai muito além da Hora do Planeta.
Pensar na Hora do Planeta como um flashmob parece reduzir o seu elevadíssimo propósito de inspirar as pessoas a deixar o mundo mais green e tocar seus corações e mentes sobre o único jeito de obter algum resultado de impacto diante dos problemas ambientais, que também são problemas sociais: agir coletivamenteNo entanto, a noção de flashmob também pode ajudar a dimensionar a sua importância, pois há diversos aspectos polêmicos. Muitos terráqueos não vão apagar a luz neste sábado. Outros classificam a Hora do Planeta como "ativismo de sofá", que só "apaga" a culpa.
Ela tem caráter de espetáculo, quando o desafio maior é tornar a ação diante de questões ambientais algo que faça parte do cotidiano do menos ativista dos mortais. O evento global cria ótimas oportunidades para o greenwash, isto é, o marketing verde desprovido de efetiva responsabilidade ambiental por parte das empresas e governos que apoiam a ação. O incremento nas adesões, portanto, poderia não corresponder, necessariamente, a uma maior "consciência ambiental" e sim à mera consolidação do tema "meio ambiente" no "clima" dos negócios e da política: 
ser ecologicamente correto pega bem junto ao consumidor e ao eleitor.
Sua ênfase é no gesto pontual e individual - caracterítsica do flashmob - quando a questão climática é questão de Estado e demanda atos permanentes, para resultados efetivos, sustentáveis, sustentados, em diversos níveis, com diversos atores. De que adianta apagar a luz por uma hora e cometer "crimes" ambientais mal a primeira lâmpada volte a funcionar?
O mundo é um só para todos, diz a Hora do Planeta, no entanto, as parcelas de responsabilidade quanto à crise ambiental não são as mesmas para os diferentes países do mundo, nem as suas conseqüências, assim como o acesso ao que se produz no planeta não é o mesmo entre os seus diferentes moradores. 
O Brasil, o país da sociedade de consumidores e da economia emergentes, que o diga, pois há pouco tempo nem Luz para Todos existia. 
Ao contrário do que diz a divulgação da Hora do Planeta, é preciso bem mais do que acender ou apagar a luz por 1 hora para demonstrar "amor pela Terra". Aliás, essa idéia de que a Terra é passível de ser amada, e que tem lá seus humores, é uma abordagem  que despolitiza o debate muitas vezes (uma questão da qual se ocupa a Ecocrítica). Porém, a despeito da quantidade de watts que venha a ser economizada naquela 1 hora, a "energia" da data é mesmo simbólica. É mais ou menos como o 1 de dezembro. As ações que acontecem no dia mundial de luta contra a aids pouco tem a ver com reduzir o número de infecções pelo HIV naquele dia específico. 
A Hora do Planeta só existe por que o homem é um animal que parou os relógios. O próprio homem só existe pelo mesmo motivo. Se não fosse um animal simbólico, o homem não viveria em sociedade, não produziria cultura, não se (re)inventaria como "espécie humana". Se não fosse o símbolo, não teríamos (sobre)vivido até aqui.  Será que a Hora do Planeta, pelo esforço que envolve, pelas tensões que não resolve, vale a pena pelo seu simbolismo? Além da catarse, o que fica? Deve ficar alguma coisa da noite da Hora do Planeta para a manhã seguinte, quando o Sol voltar a brilhar, mas o que? Como mensurar isso?
Em meio às tantas polêmicas que constituem o debate sobre a mudança climática, a Hora do Planeta é só mais uma. Apesar disso, tudo indica que a Hora deve continuar acontecendo. Quanto mais as suas contradições ficarem sob holofotes, mais se compreende as possibilidades e os limites do seu ato simbólico. A Hora do Planeta não vai "salvar a Terra" (aliás, vale refletir sobre a própria noção de "salvação").  
Entre prós e contras da Hora do Planeta, decidi participar. Como se eu estivesse em um flashmobOK, vou apagar a luz. Mas as incoerências do sério debate para o qual a Hora chama a atenção devem fiquem às claras. Uma lição que o mito da caverna de Platão já ensinou: sob a luz, se vê melhor. Para debater sobre a Hora do Planeta, como diz aquela música da Beyoncé,  turn the lights on.  






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